
Recife, 25 de Agosto de 2010
Meu querido,
Eu só me lembro dos gritos, nada mais, meu corpo ainda possuem marcas, porém se fosse apenas isso, com o tempo todas elas iriam sarar, mas a minha alma, esta cravada pelo abuso cometido por ele.
14 de Janeiro de 1998, sair de casa com a noticia de que alguns croatas foram presos pelo massacre de mais de 100 Muçulmanos, achei aquilo um absurdo, como tão poucos homens podem ter torturado tanta gente, porém não tive muito tempo para pensar na noticia, estava atrasada meus amigos buzinavam lá embaixo, eu iria a uma festa, a festa mais esperada do ano, um fim de um relacionamento tão longo, algumas semanas enclausurada, precisava me divertir, melhor se não tivesse ido.
Estava calor, algumas cervejas, nada demais, só pra balançar o corpo um pouco mais livre, ele estava ali, já tinha tinha o visto, nada demais, ele ainda era um homem bonito, mais estava comum para o meu estado de espirito, se aproximou nem dei atenção, ele riu, insistiu me tirou pra dançar, fui, um papo agradável, um olhar sedutor.
Precisei ir ao banheiro, ele me pagou uma bebida, depois nada...
Lembro dos gritos, reconheci o quarto, quantas noites passei ali sobre aqueles lençóis, entre cigarros e risadas sem fim, mais nesse dia estava tudo diferente, eu estava presa, eu não queria estar ali, eu não conseguia me mover para nenhum lado se quer, ele estava louco...
Lembro-me bem dos gritos, a cada vez que eu conseguia gritar, seus braços tentavam prender minha boca, tapas, arranhões, ele me usou naquela noite, mais do que deveria, mais do que eu sabia do que seria capaz de aguentar um dia, aquela noite seria a pior de todas as noites...
Voltei aos trapos, horas num banho interminável, torci pra que naquele dia ele tivesse acabado com a minha vida ali, mais não, passei anos sem coragem de falar sobre isso, mais você entrou em minha vida e eu precisei sumir, vivia sobre ameaças, perseguições doentias, mais eu lhe amava, minha vida havia virado um inferno, e você não sabia de nada que tinha ocorrido comigo a menos de um ano atrás, mas você iria ficar a salvo, acima de tudo a você eu pude proteger...
Hoje mais de 10 anos depois eu lhe envio essa carta, nem sei se você um dia ira ler, nem se você mora na mesma casa, porém eu precisava lhe contar, me desculpar, lhe explicar, só lhe magoei por que eu saberia que seria a menor das dores e que eu seria o menor dos seus amores.